A maioria dos cursos de ensino superior da área de humanas que oferecem Fies, o programa de financiamento do governo federal, e cobram mensalidades acima de R$ 3 mil atingiu no máximo nota 3 de um ranking que vai de 1 a 5 do Ministério da Educação (MEC), segundo levantamento da consultoria Educa Insights. O conceito 3 é o mínimo necessário para que o curso integre programas governamentais de crédito e bolsa de estudos e tenha aprovada a abertura de novas vagas.

O estudo mostra que 62,5% dos cursos que custam mais de R$ 3 mil por mês tiveram 3 no Conceito Preliminar de Curso (CPC), indicador que considera a nota do aluno no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), infraestrutura da faculdade, desenvolvimento acadêmico do estudante durante a graduação, professores com doutorado, entre outros quesitos. Uma parcela de 4,2% dos cursos dessa faixa de preço teve nota 2.

Para fazer o levantamento, a Educa Insights elencou as mensalidades praticadas neste ano em 4.661 mil graduações presenciais que oferecem Fies e cruzou com as notas obtidas nas avaliações do MEC que mensuram a qualidade acadêmica de universitários e cursos. A consultoria só considerou os cursos com Fies porque esses têm dados públicos sobre suas mensalidades o programa do governo exige essa divulgação. A última avaliação de graduações foi feita com alunos da área de humanas que se formaram em 2015.

O curso de Economia da FAAP, cuja mensalidade é R$ 3,5 mil, por exemplo, foi classificado com nota 2 pelo CPC. Na PUCRio, o curso de Economia que tem mensalidade na casa de R$ 4 mil teve nota 3. O curso de Direito no Mackenzie, em São Paulo, que custa em torno de R$ 2 mil por mês, também foi considerado 3 pelo MEC.

"Nossos professores têm contrato por horaaula de trabalho, não é período integral. Isso joga nosso CPC para baixo, mas estamos revendo esse formato de contratação para melhorar a nota", disse Luiz Alberto Machado, vicediretor de Economia da FAAP. Um dos critérios na avaliação do MEC é a quantidade de professores contratados em período integral. Considerando apenas o Enade exame feito pelos alunos a nota do curso de Economia da FAAP foi 3.

Benedito Guimarães Aguiar Neto, reitor do Mackenzie, afirmou que "o resultado não atendeu as expectativas da Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie, zelosa quanto à sua qualidade", em nota enviada ao Valor. "Entendemos que o resultado aferido não é compatível com a qualidade acadêmica histórica do nosso curso, haja vista outros indicadores, a exemplo da aprovação nos exames da OAB", acrescentou.

A PUCRio não retornou os pedidos da reportagem.

Segundo as faculdades premium, outro fator que explica o desempenho acadêmico é o critério que considera a evolução do aluno nos quatro anos da graduação. O MEC avalia o progresso do estudante no Enem (exame aplicado aos concluintes do ensino médio) e no Enade. A evolução acadêmica do aluno de faculdades premium que, normalmente, vem de bons colégios e tira notas mais altas no Enem, é menor quando comparada a do estudante de instituições populares. Boa parte dos universitários de faculdades populares teve nota baixa no Enem e o progresso que consegue obter até o termino do curso, quando faz o Enade, é maior. Os grandes grupos de ensino superior costumam dar aulas de reforço e treinamento para este último exame do MEC.

Segundo Luiz Trivelato, sócio da Educa Insights, uma das razões que explicam o desempenho das faculdades é o financiamento estudantil do governo. "Com o boom do Fies, várias instituições podem ter aumentado de forma exagerada as mensalidades e algumas escolas premium podem ter absorvido alunos com baixo desempenho acadêmico por meio do financiamento estudantil", disse Trivelato.

O consultor lembra ainda que no último ciclo do Enade não foram avaliados cursos das áreas de saúde e engenharia, cujas instituições de ensino premium costumam se destacar. As avaliações do MEC são trianuais e por blocos: humanas, exatas e biológicas.

Um desempenho ruim afeta a imagem da instituição e a área financeira. Isso porque as graduações com nota inferior a 3 no CPC não podem oferecer Fies e ProUni (programa de bolsa de estudo) e correm o risco de ser proibidas de ampliar o número de vagas e abrir novas unidades.

O MEC considera a nota 3 como satisfatória, porém, os acadêmicos e, mais recentemente, os investidores passaram a enxergar o conceito 4 como um diferencial, uma vez que hoje a maioria dos cursos, inclusive dos grupos de ensino mais populares, tem nota 3.

O setor de ensino superior como um todo reclama que a nota obtida no Enade não é incluída no currículo do aluno. Com isso, muitos universitários não são comprometidos com a avaliação do MEC. No entanto, o governo usa essa pontuação para mensurar a qualidade das graduações e das instituições.

Os critérios adotados pelo governo na avaliação são questionados há vários anos pelas instituições. Agora, as faculdades e o MEC negociam mudanças nesses parâmetros, sendo que um dos pleitos do setor é que a nota obtida no Enade seja incluída no currículo do aluno. Dessa forma, dizem as universidades, o aluno ficaria mais estimulado a tirar uma nota mais alta. E, por tabela, melhoraria a classificação do curso.

Fonte: Valor Econômico